Os efeitos colaterais que ninguém conta sobre as vacinas
Quando alguém ouve “efeito colateral de vacina”, pensa em dor no braço, talvez uma febre baixa. Quase ninguém imagina que a ciência passou os últimos anos investigando uma classe bem diferente de efeito colateral: o tipo que protege o cérebro, o coração e até afastar certos tipos de câncer.
Essa não é uma frase de marketing. É o resumo de um conjunto de estudos publicados nas revistas mais sérias do mundo — Nature, Cell, Circulation — e que vem mudando a forma como cardiologistas e neurologistas enxergam a vacinação. O problema é que essa informação chega ao público brasileiro em forma de manchete, e manchete não responde à pergunta que realmente importa: o que eu faço com isso?
É essa ponte que faltava. Aqui na Imunizar, a pergunta que mais ouvimos depois que essas notícias circulam é sempre a mesma, dita com um misto de esperança e desconfiança: “a vacina do estudo é a mesma que vocês aplicam aqui?”. Vamos responder isso — e ser honestos sobre o que a ciência ainda não sabe.
“Vacina não tem só efeito colateral ruim” — e a ciência levou a sério
Durante décadas, a vacina foi entendida de um jeito simples: você toma a da gripe para não ter gripe, a do tétano para não ter tétano. Uma vacina, uma doença. O que mudou foi a descoberta de que o sistema imunológico, quando é treinado por uma vacina, não age só contra aquele micro-organismo específico. Ele mexe em processos mais amplos do corpo — inflamação, resposta vascular, vigilância contra células anormais.
E é justamente nessas vias mais amplas que aparecem os tais “efeitos colaterais positivos”. Não foram inventados por quem vende a vacina. Foram atropelados pela ciência ao analisar milhões de prontuários e perceber um padrão que ninguém estava procurando.
A vacina do “cobreiro” e a memória: o estudo que parecia improvável
O caso mais comentado envolve a vacina contra herpes-zóster — a doença do “cobreiro”, aquela erupção dolorosa que reativa o vírus da catapora décadas depois. Pesquisadores da Universidade Stanford analisaram os registros de saúde de mais de 280 mil idosos no País de Gales e encontraram algo que não esperavam: quem tomou a vacina teve cerca de 20% menos risco de receber um diagnóstico de demência nos sete anos seguintes.
O resultado foi publicado na Nature em abril de 2025, e um seguimento na revista Cell, em dezembro de 2025, sugeriu que a vacina pode até desacelerar a doença em quem já a tem.
Pela primeira vez foi possível dizer, com bem mais confiança do que antes, que a vacina contra herpes-zóster reduz o risco de demência — e não apenas que as duas coisas andam juntas por coincidência.
Por que esse estudo é diferente dos outros
Aqui vale uma explicação, porque é o ponto que separa esse estudo de “mais uma notícia de saúde”. Estudos que apenas observam vacinados e não vacinados têm um problema crônico: quem procura se vacinar costuma cuidar mais da saúde de modo geral. Aí fica impossível saber se o benefício veio da vacina ou do estilo de vida.
O País de Gales, sem querer, resolveu esse problema. Em 2013, a vacina foi liberada apenas para quem tinha exatamente 79 anos numa data específica. Quem já tinha completado 80 ficou permanentemente fora. Ou seja: duas pessoas nascidas com uma semana de diferença tiveram destinos vacinais opostos — não por escolha, por data de nascimento. Comparar esses dois grupos é quase um sorteio. Foi isso que deu peso ao resultado.
A Zostavax do estudo é a mesma vacina que tomo na clínica?
Essa é a pergunta honesta, e a resposta exige honestidade de volta. O estudo usou a Zostavax, uma vacina de vírus vivo atenuado. No Brasil, a vacina mais usada hoje é a Shingrix, recombinante, mais moderna e com eficácia superior contra o próprio cobreiro — chega a 97% de proteção e mantém esse desempenho mesmo após os 70 anos.
O ponto delicado: ainda não existe um estudo do mesmo porte avaliando a Shingrix especificamente para demência. É plausível que o benefício se estenda, já que ela protege melhor contra o vírus — mas plausível não é comprovado, e seria desonesto afirmar o contrário. O que sabemos com segurança é que a Shingrix previne o herpes-zóster e a neuralgia pós-herpética, aquela dor crônica que pode tornar insuportável o simples toque de uma roupa. Esse benefício, por si só, já justifica a vacina para quem tem mais de 50 anos. O efeito sobre o cérebro, se confirmado, é um bônus — não a razão principal.
Quando a vacina da gripe protege o coração, não só o pulmão
Se o caso da demência ainda pede mais pesquisa, o da vacina da gripe e o coração já está num estágio mais avançado — incluindo o tipo de estudo mais rigoroso que existe, o ensaio clínico randomizado.
O estudo IAMI, publicado na Circulation em 2021, acompanhou pacientes que tinham acabado de sofrer um infarto. Metade recebeu a vacina da gripe, metade recebeu placebo. O grupo vacinado teve uma redução expressiva de morte cardiovascular nos doze meses seguintes. Em 2025, um consenso da Sociedade Europeia de Cardiologia foi além e passou a tratar a vacinação como um pilar de prevenção cardiovascular — não mais como um detalhe.
O que acontece com o coração depois de uma gripe
O mecanismo faz sentido quando você entende o que uma infecção respiratória provoca. A gripe desencadeia uma inflamação intensa no corpo inteiro. Essa inflamação pode desestabilizar as placas de gordura acumuladas nas artérias — e uma placa instável é exatamente o que precede um infarto ou um AVC. Não é exagero: o risco de infarto sobe de forma marcante nos dias que seguem uma gripe.
Vacinar-se contra a gripe, nesse contexto, deixa de ser só “evitar ficar de cama uma semana”. Para quem já tem doença cardíaca, diabetes ou passou dos 60, é uma decisão que mexe diretamente no risco de um evento grave. É uma das conversas que temos com frequência aqui na clínica com pacientes que chegam encaminhados pelo próprio cardiologista.
O caso mais sólido de todos: a vacina que evita câncer
Antes de a demência e o coração entrarem na conversa, já existia um exemplo maduro de vacina que faz mais do que prometeu: a vacina contra o HPV. Ela foi criada para impedir a infecção pelo vírus, mas o que ela de fato faz, a médio prazo, é derrubar a incidência de câncer — de colo de útero principalmente, mas também de vulva, pênis, ânus e região oral/faríngea.
Aqui não há “associação a confirmar”. É um efeito já consolidado, observado em populações inteiras conforme a vacinação avançou. Se você quer entender em profundidade como funciona essa proteção e quem deve tomar, vale ler nosso conteúdo dedicado sobre o que é o HPV e a importância da imunização. É o melhor argumento de que “vacina protege contra mais do que o nome sugere” não é novidade nem promessa — é algo que a medicina já viu acontecer.
A parte honesta: o que esses estudos ainda não provam
Aqui está o trecho que você não vai encontrar na maioria das manchetes, e é o que mais importa para uma decisão consciente.
Os pesquisadores que conduziram o estudo da demência são os primeiros a dizer que ele não substitui um ensaio clínico randomizado — o padrão-ouro da ciência. O desenho de “experimento natural” é engenhoso e robusto, mas ainda é uma associação muito forte, não uma prova definitiva de causa e efeito. E, como já dito, ele foi feito com a Zostavax, não com a Shingrix que usamos hoje.
Ou seja: tomar a vacina do herpes-zóster esperando que ela cure ou impeça o Alzheimer seria uma expectativa equivocada. O que faz sentido é tomá-la pelo motivo já comprovado — evitar o cobreiro e sua dor crônica — e encarar o possível efeito sobre o cérebro como uma camada extra de benefício que a ciência ainda está confirmando. Quem vende essas vacinas prometendo cérebro blindado está exagerando. E exagero, mais cedo ou mais tarde, custa confiança.
Em resumo, com os pés no chão
Vacina contra HPV reduzindo câncer: efeito consolidado. Vacina da gripe protegendo o coração de quem tem risco cardiovascular: forte, com ensaio randomizado. Vacina do herpes-zóster e demência: associação muito promissora, ainda aguardando confirmação definitiva e estudo direto com a vacina atual.
O que fazer com essa informação (sem virar refém do medo)
A leitura útil de tudo isso não é “corra tomar todas as vacinas porque pode prevenir Alzheimer”. É mais sóbria e mais poderosa que isso: as vacinas que você já deveria estar tomando por outros motivos podem estar fazendo um trabalho silencioso e maior do que você imaginava.
Se você tem mais de 50 anos e nunca tomou a vacina do herpes-zóster, o benefício já comprovado — evitar uma dor que pode durar anos — basta para conversar com um profissional. Se você tem doença cardíaca ou passou dos 60, a vacina anual da gripe deixou de ser opcional na lógica de prevenção. Se você ou seus filhos ainda não fizeram o esquema de HPV, esse é o exemplo mais claro de prevenção de câncer disponível hoje.
O que une essas três decisões não é o medo da demência. É a ideia de que a prevenção, feita na hora certa e com a vacina certa, rende juros ao longo das décadas. E que essa decisão merece ser tomada com calma e informação — não no susto de uma manchete.
Onde se vacinar com calma, em Florianópolis e região
Decidir com informação é diferente de decidir no medo
Se este texto levantou dúvidas sobre qual vacina faz sentido para o seu caso — herpes-zóster, gripe, HPV ou o conjunto delas — essa conversa não precisa ser apressada.
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