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Com o mundo inteiro concentrando esforços para combater o novo coronavírus (Sars-CoV-2), fica até difícil pensar em outras doenças. Mas seria ingenuidade esquecer que há inúmeros patógenos em circulação —especialmente em um país tão grande e biodiverso quanto o Brasil.

Entre eles, alguns velhos conhecidos seguem ameaçando a saúde pública de maneira silenciosa e constante. Doenças infecciosas como dengue, febre amarela e sarampo ainda não estão erradicadas.

Os novos patógenos também merecem atenção. Neste momento, o Instituto Evandro Chagas, referência em pesquisa de doenças tropicais, estuda 15 tipos de vírus recém-descobertos com potencial para epidemias.

A desigualdade regional, localização e dimensão do Brasil o expõem a riscos constantes.

Mosquitos transmissores

As infecções respiratórias não são as únicas preocupações. Os chamados arbovírus, transmitidos por picada de insetos, estão sempre no radar das autoridades de saúde e especialistas.

Existem cerca de 120 arboviroses capazes de contaminar humanos. Entre as mais notórias há a dengue, a chikungunya, o zika vírus e a febre amarela, responsáveis por epidemias sazonais.

Embora estas doenças possam ser evitadas com medidas simples, a contenção está longe de ser alcançada.

Falta de cobertura vacinal, recusa da imunização por parte da população e deficiência no controle dos vetores são os grandes obstáculos.

Com as atenções voltadas para o coronavírus, o país corre o risco de ter uma epidemia atrasada de doenças conhecidas, sobretudo no período chuvoso, a partir de outubro. Isso porque o combate aos mosquitos, como o Aedes Aegypti, deixou de ser prioritário.

O último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde contabiliza, até 11 de abril deste ano, quase 558 mil casos de dengue no país —somente 4% a menos do que no mesmo período de 2019.

A pasta explica que, no fim de 2018, o tipo 2 do vírus da dengue voltou a circular, após um período de 10 anos, e vem encontrando populações suscetíveis à doença desde então; este é um tipo mais virulento da enfermidade.

Há ainda mais de 16 mil casos de chikungunya e 2.000 casos de zika vírus registrados em 2020 (até 11 de abril e 21 de março, respectivamente).

O Ministério da Saúde informou que, para reforçar as ações no enfrentamento do mosquito, implantou o Centro de Operações de Emergência, focado em organizar respostas a emergências, além de monitorar e apoiar os estados nas estratégias de combate e controle de arboviroses.

As áreas urbanas do Brasil cresceram tanto que muitos limites municipais se confundem, dificultando a demarcação das responsabilidades de cada prefeitura, e basta que uma cidade seja negligenciada no controle vetorial para que toda a região padeça.

Tem vírus menos conhecidos também

Além dos inimigos notórios, existem ainda arbovírus menos conhecidos com potencial para causar novos surtos. Entre eles, o vírus da febre do Nilo, cujo quadro inclui febre e encefalite. Originário da África, apareceu nas Américas pela primeira vez em 1999, em um zoológico de Nova York, nos Estados Unidos.

Ele é transmitido pelo Culex, mosquito “irmão” do pernilongo comum. Aqui, casos da doença já foram registrados em cavalos no Espírito Santo, Sudeste do Brasil, e em humanos no Piauí e no Ceará, no Nordeste.

Outro patógeno com potencial grande de dispersão pelo mundo é o vírus da encefalite japonesa. Ele tem alta letalidade, lesiona o sistema nervoso central e também é transmitido pelo Culex. Por enquanto está restrito à Ásia —com casos importantes no Japão, China e Índia. Há uma vacina contra a doença. Entretanto, o cenário pode mudar facilmente quando falamos de vírus.

“A princípio, não se pode falar em iminência de pandemias por outros vírus, a não ser aqueles que já causam doenças em vários continentes. A chikungunya atingiu a Europa, o Pacífico, Sudeste Asiático, Américas… A dengue continua sendo pandemia, ocorre em cinco continentes habitados. A zika também tem esse potencial”, explica Pedro Vasconcellos, virologista que atuou por décadas no Instituto Evandro Chagas e hoje é presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical.

“Mas hoje o coronavírus é o principal exemplo de que as mutações virais podem acontecer a qualquer momento. A maioria tende a ficar regionalizada, mas esses microrganismos têm uma grande capacidade de adaptação. Podem ocorrer adequações a novos vetores distribuídos em diversas regiões”.

No Brasil, grande parte dos vírus autóctones na Amazônia circula geralmente em ciclos exóticos, dentro da mata, sem causar problema. Entretanto, nada impede a mutação para hospedeiros que picam humanos. A dengue é um exemplo —começou como um vírus silvestre na África e na Ásia e se adaptou para o Aedes, presente em áreas urbanas.

Cutucando a floresta

Em um país de dimensões continentais como o Brasil, há diversas diferenças biogeográficas de um estado para outro. A variação vai da floresta amazônica ao lavrado de Roraima no Norte do país, à caatinga no Nordeste, até o pantanal no Centro-Oeste, aos pampas no Sul. Para cada uma dessas regiões existe uma biota (conjunto de seres vivos, flora e fauna) completamente distinta, que esconde os mais variados microrganismos.

Há uma lenda sobre a construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré, marco do desenvolvimento da Amazônia instalada no começo do século passado, que serve de exemplo: a de que cada dormente da estrada de ferro representa a morte de um trabalhador durante as obras. Milhares foram vítimas de doenças tropicais como a malária, comum na região, originando a alcunha de “Ferrovia da Morte”.

Apesar de ser necessário pensar em planos de contenção de doenças em âmbito regional, as doenças não ficam restritas às suas respectivas origens.

Para Adalberto Luiz Val, biólogo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, a pandemia do coronavírus é o melhor exemplo de como a globalização serve de aliada dos vírus.

“A última coisa que dá para fazer é tentar botar uma cerca nos lugares. Não tem como colocar uma divisa em cada região para manter as doenças restritas. Vou te dar um exemplo: se você for a um mercado em São Paulo é capaz de comprar frutas e peixes amazônicos. Ou então manufaturas feitas a partir de material produzido na floresta. E é impossível controlar a circulação de pessoas. Não tem como evitar que coisas da floresta cheguem aos centros urbanos, em nenhum lugar do mundo. Isso sem falar no desmatamento. O que foi explorado não gera receita suficiente para cuidar de quem vai adoecer”.

“Cutucar a floresta” traz consequências.

A interferência do homem na natureza estimula o contato entre espécies e a consequente mutação dos vírus. Pelas nossas semelhanças genéticas com outros animais, é comum que transformações genéticas originem novos tipos virais, capazes de infectar pessoas e gerar novas epidemias.

Mais de 60% das doenças infecciosas do mundo são partilhadas entre humanos e animais. Por exemplo, o HIV tem semelhança com vírus que infectaram macacos no começo do século passado, o da imunodeficiência símia.

Já as gripes têm origem em aves e porcos que sofriam da mesma condição. A peste bovina que infectava o gado evoluiu no ser humano para o sarampo.

Zona de risco

Historicamente, as maiores epidemias do mundo surgiram no Hemisfério Sul. No caso do coronavírus, vimos o contrário. O avanço inicial da pandemia pelo Norte do globo se deu pela grande circulação de pessoas e por condições de inverno que favorecem a propagação de infecções respiratórias.

Mas, via de regra, quanto maior a biodiversidade de um local, maior o número de potenciais hospedeiros. A África Central e a América do Sul, com destaque para o Brasil, são as zonas do planeta com mais chance de originar as próximas patologias emergentes.

O surgimento de novas zoonoses se dá por uma série de vetores. Alguns são particularmente importantes em regiões tropicais, como a extensão de áreas de florestas sempre-verdes, a alta diversidade de mamíferos, além do clima favorável.

Assim, o Brasil está no centro do problema em função de uma fauna muito diversa, do maior contato de seres humanos com sistemas naturais provocado pelo desmatamento e de um processo de urbanização desordenado.

Mercedes Bustamante, ecóloga da UnB (Universidade de Brasília), explica como a dificuldade de combate a doenças contagiosas no Brasil está associada a condições de vulnerabilidade de boa parte da população. Ela entende que, embora haja diferenças regionais importantes, todo o país tem dificuldade em implantar medidas de contenção de epidemias.

“Em particular, é preocupante a situação das regiões Norte e Nordeste tanto em termos de infraestrutura hospitalar como em relação a vulnerabilidades sociais e econômicas. No caso da região Norte, é preciso considerar também as enormes distâncias entre as cidades menores e os centros com melhores condições de tratamento intensivo. Hoje vemos que, mesmo na região Sudeste, a capacidade de resposta não consegue atingir toda a população por causa das desigualdades sociais”, aponta.

Entre as medidas de prevenção importantes estão a contenção do desmatamento e o monitoramento adequado da fauna e dos vírus associados.

Mesmo com a pandemia do coronavírus, isso não está sendo colocado em prática. A destruição na porção brasileira da Amazônia subiu 30% em março na comparação com o ano passado, de acordo com o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Legado social

A história mostra que epidemias e guerras têm o poder de alterar estruturas sociais. Na idade média, a peste bubônica fez com que os governantes de países em crise, a exemplo da Europa, destinassem verba para os menos abastados.

Já a gripe espanhola estimulou o desenvolvimento da saúde pública no mundo todo. Depois, as guerras também tiveram impacto para que a sociedade adquirisse consciência sobre a necessidade de cobrar políticas públicas visando o bem-estar social.

O cenário brasileiro após a crise da covid-19 vai depender do que a sociedade se mobilizar para exigir, como explica Elisa Reis, socióloga da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). “Todo mundo está perdendo com o coronavírus. Para isso levar a políticas sociais que gerem bem público, demandas bem articuladas são imprescindíveis”.

“Muito além das elites oportunistas, parte da população acredita em lideranças incapazes porque, historicamente, não tem informação. O descaso com educação ao longo das décadas faz com que seja muito fácil difundir notícias e esperanças falsas hoje. O horizonte depois da pandemia é incerto. Mas, da maneira que vejo, o cenário mais positivo incluiria uma mobilização social grande de organização das bases.”

Os especialistas ouvidos pela reportagem de VivaBem concordam que o coronavírus está mostrando que é imprescindível ser previdente: investir em saúde pública com redes de monitoramento de doenças emergentes, manter a capacidade de centros de pesquisa de mobilizar recursos humanos e materiais, e trabalhar em políticas de longa duração de melhoria das condições de acesso a água, saneamento e moradia.

No caso específico de zoonoses, monitorar e impedir o desmatamento diminuiria o risco de surgimento de novas doenças infecciosas.

Fonte:UOL